Sete e — ah! — um minuto da manhã. Tento levantar-me. Fico de pé, visto-me,
lavo o rosto, escovo os dentes tomo vitaminas, etc. Depois disso, volto imediatamente
para a cama. A dor de cabeça está forte demais para ser enfrentada.
A vergonha também. Dia maravilhoso — o que posso ver dele, por entre os
olhos apertados. Céu e oceano azuis. Vazia a faixa de praia ensolarada. Ar fresco e
revigorante.
Não posso falar.
Oito e cinquenta e seis da manhã, O pátio silencioso, ao sol matinal. Olho para
baixo, por entre a balaustrada, e vejo o gramado verde, verdíssimo, os arbustos
admiravelmente bem cuidados, plantas formando um quadrado no centro, postes de
lampiões a cada lado. Mesas alvas, cadeiras.
Vejo o oceano, do outro lado do teto vermelho do hotel.
Nove e — ah! — seis da manhã. Desjejum no Salão do Diadema. Café puro e
uma torrada. Há mais doze co-mensais.
Aqui está demasiado ofuscante. A sala tremula minha frente. A garçonete entra
e divide meu campo visual, indo e vindo na névoa gelatinosa cor de limão que consigo
ver. Não sei por que vim aqui. Devia ter pedido que me servissem no quarto.
O sr. Farrapo, de olhos apertados, murmura em seu microfone.
Mais tarde. Não sei que horas são e nem me importo com isso. Volto a mim
novamente. Transição imprecisa. Acho que dormi. Ou desmaiei.
Opa! Como aqueles aviões voam baixo! Foi o que acabei de ver. O que vão
fazer? Pousar na praia?
Deve haver um aeroporto por perto.
Dez e trinta e sete da manhã. Deitado na cama, olho para o San Diego Union.
Não me lembro de tê-lo comprado. Devo ter estado em uma confusão mental antes.
Felizmente, consegui voltar.
Um jornal em seu centésimo quarto ano. Um bocado de tempo,
Decidi que não manteria mais contato com o mundo, mas aqui estou novamente.
Pequim já em nossas costas, O Mariner 9 localiza uma área quente em Marte. Em
Sacramento, reduzido o projeto para proteção costeira.
Esqueça, Collier. Você pode ir em frente, sem o noti ciário do dia,
Amanhã é lua nova. Isso é tudo quanto precisa saber.
Dou um passeio, inspirando o ar puro e fresco do oceano. Tem um cheiro
maravilhoso, Estou caminhando bem abaixo da torre - descobri que lá há um salão de
baile. Urna piscina olímpica fica à minha esquerda; água azul e cintilante. Vejo
espreguiçadeiras dobráveis alinhadas do outro lado; chalés, mesas de pingue-pongue.
Tudo deserto.
Grande dia. Sol quente, céu azul, nuvens rechonchudas.
Caminho perto das quadras de tênis. Quatro mulheres jogam em duplas; uma
visão de saiotes brancos e pele semelhante a couro. Além fica a praia. Uma centena de
metros, até as ondas baixas, de espuma branca.
Olho agora para o hotel, urna estrutura maciça, a torre como um minarete
gigante, octogonal, tendo em cada lado duas fileiras de pequenas janelas de sacada.
No alto, o que me parece uma torre de observação. Gostaria de saber se os hóspedes
têm permissão para subir até lá.
Caminho de volta. Mais além, um edifício moderno e alto; deve ser um
condomínio ou coisa assim. Tem uma aparência estranha, que contrasta com este
hotel.
Olho para uma antiga torre de tijolos, do outro lado do caminho. Deve ter sido a
casa de barcos do hotel, há muito tempo; hoje, é um restaurante. Vejo o que parece
uma via férrea fora de uso, Imagino que, outrora, os trens chegavam perto da praia,
trazendo hóspedes.
Estou sentado onde era a antiga sala de banhos; agora, é a Sala do Cassino.
Está fechada; tudo silencioso, O balcão deve medir quinze metros de comprimento,
com um formato e um acabamento bonitos. Numa das extremidades, vejo algo
semelhante a um relicário, tendo em seu interior a figura do que parece um mouro,
carregando uma luminária.
Quantos sapatos terão desgastado aquela barra de latão?
Ainda há pouco, estive observando as fotografias de artistas de cinema que
estiveram aqui. June Haver. Robert Stack. Kirk Douglas. Eva Marie Saint. Ronald
Reagan. Donna Reed. Um retorno às beldades da companhia de Pola Negri, retorno a
Mary Pickford, retorno a Marie Callahan, das Ziegfeld Follies. Como este lugar recua no
tempo!
Deixe-me recordar o momento: onze e vinte e seis da manhã.
Eu voltava através do pátio, para o meu quarto, quando vi um cartaz indicando
um Salão de História, instalado no porão.
Lugar intrigante. Fotografias como as existentes na Arcada. Um quarto de
dormir, como os que havia em 1890 ou Início de 1900. Objetos históricos do hotel
exibidos em vitrines - um prato, um menu, um porta-guardanapos, um ferro de passar
roupa, um telefone, um livro de registro de hóspedes.
Em um dos painéis, o programa de uma peça representada no teatro do hotel
(onde quer que se localizasse), a 20 de novembro de 1896: O pequeno ministro, de J.
M. Barrie, estrelada por uma atriz chamada Elise McKenna. Ao lado do programa, uma
foto dela: o rosto mais gloriosamente belo que já vi na vida.
Apaixonei-me por ela.
Bem típico de mim. Trinta e seis anos, uma migalha aqui, outra acolá, um
punhado de romances ao acaso, arremedando amor. Só que nada foi real, nada
perdurou.
E agora, chegado à condição terminal, após tanto tempo, libero finalmente o
coração, para uma mulher morta há vinte anos, no mínimo.
Belo espetáculo, Collier!
Aquele rosto me persegue.
Voltei lá para vê-lo; fiquei tanto tempo à frente do painel de exibição, que um
homem, entrando e saindo periodicamente por uma entrada de empregados próxima,
ficou olhando para mim, como se quisesse saber se eu me enraizara ali.
Elise McKenna. Nome adorável. Rosto deslumbrante.
Como eu adoraria sentar-me no teatro (numa foto de museu, descobri mais
tarde que se situava no salão de baile), a fim de vê-la representar! Ela deve ter sido
soberba.
E como saber? Talvez fosse péssima. Não, não acredito nisso,
Parece-me já ter ouvido seu nome antes. Não teria feito Peter Pan? Se for quem
imagino, foi uma atriz esplêndida.
E lindíssima, sem dúvida.
Não, é mais que beleza. O que me persegue e conquista é a expressão de seu
rosto. Aquela doce, suave e sincera expressão. Eu gostaria de tê-la conhecido.
Estou deitado aqui, observando o teto como um garoto perdido de amor.
Encontrei a mulher dos meus sonhos.
Uma descrição apropriada. Em que outro lugar ela pode existir senão em meus
sonhos?
Bem, por que não? A mulher dos meus sonhos tem sido sempre inacessível
para mim. Que diferença podem fazer uns meros setenta e cinco anos?
Não consigo parar de pensar naquele rosto. Penso em Elise McKenna e em
como ela seria.
Eu deveria estar lidando com Denver, minha projetada odisséia. No entanto,
continuo aqui como uma massa informe, com o rosto dela impresso na mente. Fui três
vezes lá embaixo. Uma tentativa evidente para fugir da realidade. A mente que se
recusa a aceitar o presente, voltando-se para o passado.
Não obstante... Palavra, mas neste momento sinto-me o objetivo de alguma
sádica brincadeira para ridicularizar-me. Não que exista qualquer tendência à
autocomiseração, porém - Deus do céu! - lançar uma moeda, dirigir mais de cento e
cinqúenta quilômetros rumo a uma cidade que nunca vi, abandonar a auto-estrada por
um capricho, cruzar uma ponte, deparar com um hotel cuja existência ignorava e, nele,
ver a foto de uma mulher morta há tantos anos... e amar, pela primeira vez na vida...
O que é mesmo que Mary costuma dizer? ‘‘Demais para o coração’’?
É exatamente o que acontece.
Estive caminhando na praia. Tomei um drinque na Sala de Descanso Vitoriana.
Olhei novamente para a fotografia dela. Voltei à praia, sentei-me na areia e contemplei
as ondas.
Tudo inútil. Não consigo fugir à sensação. Com rotos fragmentos de
racionalidade, percebo (eu!) que estou em busca de algo a que me agarrar, que esse
algo nem mesmo precisa ser real, e que Elise McKenna transformou-se nele.
De nada adianta perceber tudo. Isso fermenta dentro de mim e se torna uma
obsessão. Quando estive antes no Salão de História, precisei de toda a minha força de
vontade para não quebrar o vidro daquele painel, roubar a fotografia e correr.
Ei! Uma idéia! Posso fazer alguma coisa nesse sentido. Nada que detenha essa
obsessão, em última análise, nada que a piore, segundo todas as probabilidades, mas
posso fazer algo, ao invés de ficar perambulando por aí.
Irei até uma livraria local ou, o mais provável, a alguma de San Diego, procurar
alguns livros que falem dela. Tenho certeza de que existem uns dois, pelo menos.
Aquele programa lá embaixo refere-se a ela como “a famosa atriz americana’’.
Farei isso! Quero descobrir tudo quanto puder sobre meu amor há tanto perdido.
Perdido? Certo, certo. Sobre minha adorada, que nunca soube ser o meu amor porque
só passou a sê-lo depois de morta.
Gostaria de saber onde ela foi sepultada.
Estremeci. A visão de sabê-la sepultada causa-me arrepios. Morto, aquele
rosto?
Impossível.
Recordo-me de que, quando estava na universidade, minha senhoria (a
enfermeira cientista-cristã local, ela própria com oitenta e sete anos) cuidava de uma
velha de noventa e seis, para quem trabalhara no passado. Essa mulher mais velha,
srta. Jenny, era completamente inválida. Além de paralítica, era surda, cega, molhava a
cama, tinha mais vida vegetal que animal. Eu e meu companheiro de quarto
— envergonho-me disso agora — costumávamos irritar-nos, quando ela
chamava, em sua voz frágil e trêmula, “Uh, uh, srta. Ada! Quero me levantar!” Apenas
essas palavras, noite e dia, nos lábios de urna mulher que estava impossibilitada de se
levantar da cama.
Certo dia, quando fui à sala de estar da srta. Ada para usar seu telefone, notei a
foto de uma adorável jovem, usando um vestido de gola alta, de cabelos escuros,
longos e brilhantes: a srta. Jenny quando nova. O mais estranho senso de confusão se
apoderou de mim. Porque aquela jovem me atraía, ao passo que, no mesmo momento,
eu podia ouvir a srta. Jenny, no quarto vizinho, falando com sua voz de velha em sua
cegueira e surdez, em sua total dependência, que queria se levantar. Foi um momento
de aterrorizante ambivalência, com o qual eu não podia lutar muito bem, aos dezenove
anos.
E ainda não posso enfrentá-lo.
O empregado trouxe meu carro e o deixou parado à
frente do hotel. Parece-me estranho, embora só tenha ficado
estacionado no local desde ontem à tarde; assemelha-se mais
a um artefato que a uma propriedade. Também sinto estranheza ao dirigi-lo. Perdi o
senso da direção, da noite para
o dia.
Estive em algumas livrarias de Coronado, mas não encontrei nada.
Aconselharam-me a ir a Wahrenbrock’s, em San Diego. O empregado do hotel
ensinou-me como chegar lá: cruzar a ponte, seguir para o norte pela auto-estrada, sair
na Sixth e descer para a Broadway.
Estou na ponte agora. Posso ver a cidade à frente; montanhas à distância.
Experimento uma curiosa sensação: quanto mais me afasto do hotel, mais me afasto
de Elise McKenna. Ela pertence ao passado. Como o hotel. É uma espécie de
santuário, para cuidar do passado e protegê-lo.
Não há muito tráfego na auto-estrada. Vejo uma indicação à frente: "Los
Angeles”. Querem enganar-me, fazer-me pensar que essa cidade ainda existe.
A saída para a Sixth Avenue está logo adiante.
Mais tarde. Durante a volta, eu mal podia conter os nervos, Meu Deus, como
estou nervoso! San Diego, sincera-mente, deixa-me mal. O ritmo, as multidões, o
estrépito, a opressiva e pulsante atualidade de tudo. Sinto-me desenraizado,
entontecido.
Graças a Deus, encontrei a livraria sem dificuldade e graças a Deus parecia um
oásis de paz, naquele deserto de Agora. Sob nenhuma outra condição eu poderia ter
ficado lá, durante horas, remexendo milhares e milhares de volumes, em dois
pavimentos e um porão atulhados de fascinantes coleções.
Havia uma pesquisa a fazer, entretanto, e eu precisava retornar ao hotel. Assim,
comprei o que havia disponível; não muita coisa, infelizmente. O encarregado da
livraria me disse que, segundo sabia, não havia nenhum livro exclusivamente sobre
Elise McKenna. Suponho então que ela não tenha sido tão importante assim. Não para
o público, não para a história. Para mim, ela é importantíssima.
Vejo o hotel à distância e sou invadido por uma onda de nostalgia. Eu gostaria
que me fosse possível transmitir a sensação de volta ao lar que experimento.
Estou de volta, Elise.
Estou em meu quarto; passa um pouco das três horas. É incrível a forte
sensação que experimentei ao entrar no hotel. Não precisei fomentá-la, como
aconteceu ontem; ela me envolveu num jato. Imediatamente, vi-me possuído e
confortado por ela - o passado que me abraçava. Não consigo descrever de outro
modo.
Certa vez, li um artigo sobre projeção astral: as viagens do chamado corpo
imaterial, que dizem possuirmos, feitas quando dormimos. Minha experiência parece
similar. Foi como se, ao dirigir para San Diego, deixasse uma parte de mim para trás,
presa à atmosfera do hotel, ficando a outra ligada a ele por um longo e fino cordão
elástico. Enquanto me encontrava em San Diego, esse cordão estirou-se ao maximo de
sua capacidade, deixando-me vulnerável ao impacto do presente.
Então, quando voltei, o cordão passou a encolher-se e, à medida que
engrossava, tornou-se capaz de transmitir-me mais da confortante atmosfera. Quando
avistei a estrutura imponente do hotel, elevando-se acima das árvores distantes, quase
gritei de alegria. Quase, não. Gritei mesmo.
Agora estou de volta e recuperei a paz. Cercado por este intemporal castelo nas
areias, tenho quase certeza de que nunca mais voltarei a San Diego.
Escrevo novamente, ouvindo a Quinta, de Mahler, em meus fones de
ouvido - Bernstein e a Filarmônica de Nova York. Linda; eu a adoro!
Bem, vamos aos livros.
O primeiro é de John Fraser, chamado Astros do teatro americano. Olho as duas
páginas de registro sobre ela.
Há uma série de fotos no topo da página esquerda, mostrando-a desde a
infância até a idade avançada. Fico perrurbado ao ver aquele rosto adorável
envelhecer, da esquerda para a direita.
Uma segunda fila mostra três fotos maiores: em uma, ela aparece bem idosa, na
outra, bem nova; a terceira é semelhante à fotografia do Salão de História - aquele
rosto franco e refinado, com os longos cabelos caindo sobre os ombros; a maneira
como ela apareceu em O pequeno ministro.
A terceira fila de fotos mostra Elise usando um traje adorável, com as mãos
pousadas delicadamente no colo; foi extraída de uma peça intitulada Uma rua de
distinção. Em seguida, um instantâneo seu como Peter Pan (então, ela trabalhava
nessa peça), usando o que parece ser um traje camuflado do exército e um chapéu
emplumado, tocando a mesma flauta executada por Pã, naquela poltrona de madeira
do andar de baixo.
A fila inferior a mostra como personagem de suas outras peças: L'aiglon, Pórcia,
Julieta; meu Deus, até mesmo um galo, em Chanticleer!
Na página oposta, uma foto de página inteira a mostra de perfil. Não gosto.
Aliás, não me preocupo com qualquer dessas fotos. Nenhuma possui a qualidade da
que vi primeiro. Isso desperta uma curiosa sensação. Se aquela fotografia
fosse igual a uma dessa., eu teria passado por perto e nada sentiria.
E, agora, eu já poderia estar a caminho de Denver.
Esqueça. Leia.
Um breve relato informa que ela foi uma das mais reverenciadas atrizes do palco
americano, durante muitos anos o maior sucesso de bilheteria do teatro. (Como, então,
não haver nenhum livro sobre ela?) Nasceu em Salt Lake City, a 11 de novembro de
1867, e deixou a escola aos catorze anos, para tornar-se estrela em tempo integral. Foi
para Nova York com a mãe, em 1888, a fim de fazer uma aparição em O pagador.
Apareceu com E. H. Southern. Foi a protagonista de John Drew durante cinco anos,
antes de tornar-se estrela. Era extremamente retraida e evitava a vida social. Embora
frágil fisicamente, dizia-se que nunca faltara a um espetáculo, em roda a carreira.
Jamais se casou, e faleceu em 1953.
Eu gostaria de saber por que ela nunca se casou.
Segundo livro. Martin Ellsworth: História fotográfica do palco americano. Mais
fotografias, embora não ocupem várias páginas; estão espalhadas pelo livro,
mostrando-a em ordem cronológica, desde o primeiro até o último desempenho — de
O garoto andarilho, em 1878, a O mercador de Veneza, em 1931. Uma longa carreira.
Eis aqui uma foto dela, protagonizando Julieta, com William Faversham. Garanto
que esteve ótima.
O pequeno ministro novamente. Uma vez que as representações tiveram início
em setembro de 1896, na cidade de Nova York, aqui deve ter sido uma espécie de
ensaio.
Meu Deus, que torrente de cabelos! Parecem luz em cores, não são louros,
tampouco acastanhados. Ela tem um robe em torno dos ombros e olha para a câmara;
para mim.
Aqueles olhos!
Terceiro livro; Paul O'Neil: Broadway.
Este fala sobre seu empresário, William Fawcett Robinson. Aqui diz que ela
preenchia seus requisitos perfeitamente; a concepção que ele (e a época) faziam a
respeito da atriz ideal. Precedendo em décadas a adulação às artistas de cinerna, ela
foi a primeira atriz a criar uma mística aos olhos do público — jamais vista em público,
jamais citada pela imprensa, aparentemente sem uma vida fora do palco, a quintessência
absoluta do isolamento.
Segundo O'Neil, Robinson aprovava tal sistema. Os dois tiveram atritos até
1897, mas, a partir desse ano, ela se dedicou ao trabalho, sublimando cada faceta da
vida particular à especializaçao no palco.
O’Neil diz que ela possuía uma qualidade mágica como atriz. Mesmo no final
dos trinta anos, Elise era capaz de desempenhar o papel de uma jovem ou um
rapazola. Seu charme, na opinião dos críticos, era ‘‘etéreo, luminoso, cintilante”. O’Neil
acrescenta: “Tais qualidades nem sempre se revelam em suas fotos?’’
Amém a isso.
‘‘Por sob essa ingênua superfície, no entanto, havia uma artista disciplinada, em
especial depois de 1897, quando ela passou a dedicar-se exclusivamente a seu
trabalho.”
O’Neil registra que, não obstante, faltava-lhe o dom natural para o palco. Em
seus primeiros anos, os papéis desempenhados foram mais ou menos um fracasso.
Depois que Robinson passou a ser seu empresário, contudo, ela trabaIhou para
aperfeiçoar-se, com absoluto sucesso; o público começou a adorá-la, embora os
críticos a encarassem como “confessamente encantadora, mas de pouca
profundidade”.
Então chegou 1897, e tanto os críticos como o público a envolveram no que
O'Neil descreve como “um abraço interminável”.
Barrie adaptou para ela seu romance O pequeno ministro. Posteriormente,
escreveu Uma rua de distinção, também para ela, em seguida Peter Pan, depois O que
toda mulher sabe e então Um beijo para Cinderela. Peter Pan foi o seu maior sucesso
(embora seu favorito fosse O pequeno ministro). “Jamais testemunhei semelhante
adulação emocional no teatro”, escreveu um crítico. “Era histérico. Seus admiradores
enchiam o palco de flores.” Em resposta a isso, acrescenta O'Neil, ela fazia a mesma
declaração do palco, já conhecida de todos, breve e ofegante: “Obrigada. Obrigada...
por todos nós, Boa noite”.
A despeito do retumbante sucesso, sua vida particular permaneceu um mistério.
Os poucos amigos íntimos eram pessoas que não pertenciam ao meio artístico. É
citada uma colega atriz, como tendo dito: “Durante muitos anos, ela parecia
absolutamente encantadora e alegre. Então, em 1897, começou a tornar-se a mulher
‘Eu quero ficar só’ original”.
Eu gostaria de saber por quê.
Outra citação, esta atribuída ao ator Nat Goodwin:
“Elise McKenna é uma palavra de uso doméstico. Ela faz jus a tudo o que represente a
verdadeira e virtuosa feminilidade. No apogeu da fama, teceu o próprio manto e o colocou
sobre o pedestal onde permanece sozinha. No entanto, ao contemplar aqueles
olhos de cerva, fiquei curioso. Notei pequenas rugas no rosto mordaz e bruscas linhas
verticais entre as sobrancelhas. A mim, sua pele pareceu seca, os gestos, tensos, a
fala, hesitante. Tive vontade de segurar na minha uma daquelas mãos artísticas e
dizer: ‘Pequenina mulher, receio que, inconscientemente, você esteja perdendo a maior
coisa do mundo — o romance
A essa altura, o que sei sobre ela? Quero dizer, além do fato de amá-la.
Sei que, até 1897, ela foi notável, vitoriosa e competente em sua arte, e que
brigava com seu empresário.
Que, depois de 1897, tornou-se: primeiro, uma reclusa; segundo, uma estrela
absoluta; e terceiro, o conceito de seu empresário, sobre uma estrela absoluta.
A peça de transição, se assim pode ser chamada, foi O pequeno ministro, a
mesma que representou experimental-mente neste hotel, cerca de um ano antes de
estreá-la em Nova York.
O que aconteceu durante aquele ano?
Uma breve seleção do livro final: o volume dois, da História do teatro americano,
de V. A. Bentley.
“Sua ascensão à aclamação dos críticos, após 1896, foi rápida, quase
fenomenal. Embora antes, a despeito de seu sucesso e adulação, ela não houvesse
manifestado nenhum dom realmente notável para a arte dramática, depois disso nao
existiu papel em que não tivesse um desempenho magnífico.”
É feita uma menção quanto a seu desempenho de Julieta representar um
símbolo dessa mudança. Em 1893, ela o representou com uma acolhida menor da
crítica. Quando o repetiu, em 1899, a aclamação foi geral.
Algumas palavras são dedicadas a seu empresário. “Homem de temperamento
excessivamente enérgico, William Fawcett Robinson conquistava a antipatia de quase
todos os que o conheciam. Não contando com a vantagem de uma boa instrução,
ainda assim se mostrou corajoso e arrojado em seus muitos empreendimentos."
Santo Deus! Ele morreu no Lusitania.
Pergunto-me se a amou. Deve tê-la amado. Quase posso captar o sentimento
dirigido a ela. Sem instrução, rude, talvez nunca lhe tenha falado sobre o que sentia,
em todo o período do relacionamento de ambos, esforçando-se ao máximo para
mantê-la elevada e, dessa forma, certificando-se de que também permaneceria
inatingível para outros homens.
Este é o último dos livros.
Estou sentado junto da janela, voltando a ditar. São quase cinco horas, o sol vai
se pondo. Outro dia.
Sinto uma profunda inquietação interior e não consigo resolvê-la, de modo
algum. Por que tenho de deixar-me envolver assim? Ela está morta. Em sua sepultura.
Transformou-se em pó.
Não!
As pessoas do quarto ao lado, que estavam conversando, ficaram
absolutamente silenciosas. Meu grito deve tê-las assustado. Charlie, há um louco no
quarto vizinho, avise a portaria.
Mas... Deus, oh, Deus, eu me odeio por haver dito aquilo! Ela não está morta.
Não a Elise McKenna que eu amo. Essa Elise McKenna está viva.
Será melhor ficar deitado, de olhos fechados. Vamos com calma; você está
perdendo o controle da situação.
Estou deitado na escuridão, perseguido pelo mistério que envolve Elise.
Precisarei tornar-me detetive para solucioná-lo?
Posso tornar-me detetive? Ou estará tudo perdido, enterrado nas areias do
tempo?
Preciso sair deste quarto.
Terá ela, um dia, caminhado por este mesmo corredor? Duvido; era demasiado
famosa. Certamente, foi alojada no primeiro andar, de frente para o mar. Um quarto
amplo, com sala de estar anexa.
Parei. Fico aqui, de olhos fechados, sentindo a atmosfera do hotel impregnarme.
O passado está aqui; não tenho nenhuma dúvida.
Não creio, contudo, que os fantasmas perambulem por este lugar. Muitos
hóspedes chegaram e se foram; dissipariam um espírito individual.
O passado, por outro lado, como um imenso e coletivo fantasma, está presente
aqui, além de qualquer possibilidade de exorcismo.
Estou numa sacada do quinto andar, olhando para as estrelas.
Ao olho humano, as estrelas se movem com imensa lentidão. Considerando seu
movimento relativo, neste momento eu e ela poderíamos, virtualmente, estar
contemplando o mesmo cenário.
Ela, em 1896, eu, em 1971.
Estou sentado no Salão de Baile. Houve algum aconte cimento aqui, mais cedo;
há toalhas de mesa juncando o chão, cadeiras espalhadas por todos os lados. Olho
para o palco onde Elise McKenna representou. Está a menos de quinze metros de
mim.
Agora de pé, caminho para o palco. Os seis lustres gigantescos estão apagados.
A única luz provém de lâmpadas instaladas nas quinas das paredes externas do salão.
Meus sapatos se movem silenciosamente sobre o piso encerado.
Encontro-me agora de pé no palco. Terá sido modificado o seu tamanho ou
formato, desde então? Imagino que sim. De qualquer modo, em O pequeno ministro,
ela teve de caminhar por este mesmo local. Talvez tenha feito uma pausa aqui, até
mesmo parado.
A ciência nos diz que nada pode ser destruído. Em um sentido real, então,
alguma parte dela deve permanecer aqui. Alguma essência que exsudou durante sua
atuação. Aqui. Agora. Neste lugar. Sua presença se funde á minha.
Elise.
Por que sou tão atraído para ela e o que posso fazer a esse respeito? Não sou nenhum
rapazinho. Um jovem poderia gritar: “Eu a amo! !" suspirar, grunhir, revirar os olhos,
apreciar abertamente a catarse. Eu, não. Tenho consciência da insanidade do que
experimento, paralela ao sentimento.
Eu gostaria de ser um rapazinho novamente - sem questionar, sem necessidade
de analisar o momento. Passei por tal sensação, quando olhei para a fotografia dela
pela primeira vez; estava emocionalmente confuso. Agora, impõese a realidade. Sou
impelido simultaneamente para duas direções - ânsia e raciocínio. Em momentos
assim, odeio o cérebro. Ele sempre ergue mais barreiras do que pode transpor.
Sentado na cama, com os fones nos ouvidos, escrevo novamente; desta vez é a
Sexta. Seus sombrios sentimentos refletem os meus .
Quando a fome apertou e procurei comer alguma coisa, o Salão do Diadema já
estava fechado. Assim, comprei um saco de Fritos, um bife sem molho, uma pequena
garrafa de Mateus e soda. Agora, mastigo ruidosamente e bebo um Spritzer Mateus,
com o gelo que pedi à copa. Não acredito que Mahler seja beneficiado de algum modo,
em vista dos ruídos da trituração em minha cabeça.
Estou relendo os livros, à procura de algo mais sobre ela.
Não existe nada mais, entretanto. Estou frustrado. Deve haver mais alguma
coisa escrita a seu respeito. Contudo, onde encontrar?
Deus Todo-Poderoso, Collier! Você fica mais imbecil a cada dia que passa. Nunca
ouviu falar em biblioteca pública?
Pobre Elise! Um imbecil apaixonou-se por você.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
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Um comentário:
No primeiro dia do diário é possivel perceber a existência do vazio da vida de Chris.. antes havia o emprego, haviam os eventos mas havaia uma lacuna. O encontrar o retrato de Elise devolve a ele um motivo, para ir alem.
Eu encontrei meu motivo para ir alem. Encontrei a minha Elise.
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