quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

14 de novembro de 1971

Zona rural de Los Angeles. O terreno se afunda de um lado e, após a valeta da

estrada, eleva-se na margem aposta. Manhã de domingo. Tranqüila. As aroeiras que

margeiam a estrada agitam sua folhagem brisa.

Quase fora, agora. Longe de Bob e de Mary, de sua casa, de minha casinha de

hóspedes nos fundos; também de Kit, que me visitava enquanto eu trabalhava, batia os

cascos, bufava, sacudia a cauda, gemia e, como falhasse tudo o mais para chamar

minha atenção e potencial alimento, batia o focinho na parede. Acabou-se.

Estou no estacionamento vazio, ao lado dos Correios. É a última visita que faço à

minha caixa postal. Enviei pelo correio meus dois últimos pagamentos para Ma Beli e

The Broadway.

Estou descendo a Long Valley Road em meu carro; sol brilhante e céu azul.

Passo pelas cercas, com suas três ripas horizontais pintadas de branco. Um cavalo me

avalia.

Espero, enquanto lavam meu carro. Há um vazio estranho. Estarão todos na

igreja? Um Mercedes-Benz bege acaba de avançar aos pouquinhos. Eu sonhava ter

um, algum dia. Outro projeto posto de lado. Tomo um caldo de carne, comprado na

máquina automática. Aí vem meu Galaxie azul-escuro. Sóbrio, recomendável e de

preço médio; o tipo de carro ideal para mim. É acolhido pelas mangueiras, que

esguicham longos e finos jatos de espuma.

A última valeta e o quebra-molas final. Mais adiante, a Ventura Freeway e o

mundo. Na tabuleta acima da casa do porteiro, está escrito Adios, amigos. Adeus,

Hidden Hills!

Espero o sinal mudar, junto ao Topanga Boulevard. Ele abriu agora. Uma

rápidamanobra para a esquerda -diminuo a marcha dobro à direita - subo a rampa e

desemboco na Ventura Freeway. Adeus, Woodland Hills! Um dia francamente

maravilhoso. Céu azul radiante; nuvens ralas e pâlidas, quc parecem bandeirolas. O ar

é como vinho branco gelado. Passo pelo Gemco e pelo Valley Music Theatre. Ambos

ficam para trás, deixam de ser reais. Meu jogo agora é o solipsismo.

Antes de vir, joguei uma moeda: cara, norte; coroa, sul. Sigo para San Diego. E

curioso pensar que, se a moeda girasse um-a vez mais, eu estaria chegando a San

Francisco no fim desta tarde.

Minha bagagem é pequena: duas malas. Num-a, estão o terno marrom-escuro, o

paletó esporte verde-escuro, calças, algumas camisas, roupa de baixo, meias, sapatos

e lenços, bem como minha pequena bolsa de zíper, com artigos de toalete. Na outra,

minha vitrola, fones de ouvido e dez sinfonias de Mahler. A meu lado, o velho e fiel

gravador. lenho ainda a roupa do corpo; o indispensável. Exceto, naturalmente os

cheques de viagem e dinheiro vivo. Cinco mil setecentos e noventa e dois dólares e

trinta e quatro cents.

Engraçado! Quando fui ao Bank of America, na sexta-feira, e fiquei na fila,

comecei a impacientar-me. Recordeime então. Não preciso mais me impacientar. Olhei

para todas aquelas pessoas e senti pena delas. Ainda eram escravas do relógio e do

calendário. Dispensado de qualquer obrigação, voltei a acalmar-me.

Acabei de perder o desvio para a San Diego Freeway. Calma. Posso

perfeitamente continuar com meu esquema livre. Acertarei a situação de novo, indo até

o centro da cidade, pegando a Harbor Freeway e alcançando San Diego por outro

caminho.

Um cartaz mais adiante recomenda a Disneylândia. Devo fazer uma visita final

ao reino da fantasia? Não fui mais lá desde 1969, quando mamãe nos visitou. Então,

eu, Bob, Mary e seus filhos a levamos à Disneylândia. Não, a Disneylândia está fora do

programa. Para mim, a única atração lá seria o Castelo Mal-Assombrado.

Outro cartaz. Anuncia: “Aberto agora - O Queen recomenda Long Beach’’. Isso parece

mais provável. Nunca estive a bordo do Queen; Bob foi nele para o estrangeiro,

durante a Segunda Guerra Mundial. Por que não dar uma espiada?

A minha esquerda, o obelisco, a enorme e negra lápide:

Universal Tower. Quantas vezes estive lá, a serviço? É curioso perceber que nunca

mais verei outro produtor, nunca mais prepararei outro script. Nunca mais precisarei

telefonar para meu agente. ‘Ei, pelo amor de Deus, onde está meu cheque? Fiquei na

lona!” Eis aí um pensamento tranqüilo. Também uma perfeita cronometragem; deixálos

quando, afinal das contas, mal existe alguém trabalhando.

Quase chegando ao Hollywood Bowl. Não vou lá desde agosto último. Levei

aquela secretária da Screen Gems. Como era mesmo o nome dela? Joan, June, Jane?

Não consigo me lembrar. Recordo apenas que ela disse ser louca por musica clássica.

Na verdade, a entediava. Da mesma forma que as ninharias no estilo do Bowl.

Concerto número 2 de Rakhmanínov? Joanjunejane nunca ouvira falar nisso.

Qualquer um imaginaria que, após todos esses anos, eu teria conhecido alguém.

Carma negativo? Mau negócio. Nunca, em toda a vida, encontrar uma mulher que nos

agrade? Incrível. Deve existir algo escondido no meu passado, sem dúvida. Obsessão

com meu velocípede. Buuu para Freud. É possível aceitar-se o fato de eu nunca ter

encontrado uma mulher a quem pudesse amar?

Estou no tráfego pesado, perto da Harbor Freeway. Os carros me cercam por

todos os lados. Homens e mulheres em cada canto. Não me conhecem, e não os

conheço. Há bastante nevoeiro aqui embaixo. Espero que o tempo esteja claro em San

Diego. Nunca estive lá; não sei como é. Poder-se-ia descrever a morte dessa maneira.

Music Center. Um lugar estonteante. Fui lá, faz uma semana ou pouco mais,

a.C. — antes de Crosswell. Executaram a Segunda sinfonia de Mahler. Mehta fez um

belo trabalho. Quando o coro entrou suavemente, no movimento final, comecei a vibrar.

Quantas cidades verei? Denver? Salt Lake City? Kansas City? Terei de ficar um

ou dois dias em Columbia.

Um pensamento divertido. Vou me tornar criminoso, pois não pretendo mais

mandar pelo correio nenhum pagamento do carro. E sabe de uma coisa, sr. Ford?

Estou pouco ligando.

Deus!

Um caminhão mudou de rumo, bem na minha frente, e fui forçado a trocar de

faixa rapidamente. Meu coração disparou, pois não houve tempo de ver se vinha

alguem a minha traseira, naquela faixa.

Ainda sinto o coração batendo forte, mas estou aliviado por saber-me a salvo.

Até que ponto alguém pode ser tão imprudente?

Estou vendo as trés chaminés vermelhas, de topo negro. Será que o cimentaram

ali? Já lamento sua condição. Enraizar um navio desses, em algum lugar, é como

empalhar uma águia. A figura pode ser imponente, mas seus dias de glória terminaram.

O Queen acabou de falar; um brado ensurdecedor, que sacode o ar. Como é

grande! Parece o edifício Empire State deitado de lado.

Fiz o pagamento na cabine vermelha, subi pela escada rolante e agora caminho

devagar e com dificuldade, ao longo da passarela coberta, aproximando-me do navio.

À minha direita está o porto de Long Beach, com suas águas azuis, movendo-se

rapidamente. À esquerda, um garotinho, que olha para mim. Quem será o homem

engraçado, falando numa caixa preta?

Outra escada rolante à frente, bem comprida. Qual será a altura do Queen?

Calculo uns vinte andares.

Estou sentado no salão de estar principal. Madeira trabalhada no estilo da

década de 30. É curioso que achassem isso elegante. Colunas imensas. Mesas,

cadeiras. Uma pista de dança. Um enorme piano de cauda no palco.

Uma arcada; lojas circundando uma praça pavimentada de ladrilhos. Luzes no

alto, do tamanho de rodas de caminhão. Mesas, poltronas e sofás. Tudo isso flutuou

um dia?

Espantoso! Seria como no Titanic? Tento imaginar um lugar como este, engolido

pelo mar. uma visão aterradora.

O que me agradaria era esgueirar-me para a parte de baixo; para a parte

escura, onde ficam os camarotes. Caminhar ao longo dos corredores sombrios e

silenciosos. Serão mal-assombradas?

Não irei lá, evidentemente. Obedecerei aos regulamentos.

Os velhos hábitos custam mais a morrer que os seguintes.

No anteparo divisório, uma ampliação fotográfica. Gertrude Lawrence com seu

cachorro branco. Como aquele que apareceu em Oliver Twist, de David Lean; feio,

atarracado e de orelhas pontudas.

A srta. Lawrence sorri. Não percebe, enquanto passeia pelo convés do Queen,

que a mortalidade caminha rente às suas costas.

Vejo fotografias em um painel, intituladas “Cenas memoráveis.”

David Niven, dançando uma jiga escocesa. Parece muito contente. Ele não sabe

que sua esposa morrerá em breve. Contemplo aquele instante congelado e,

desconfortavelmente, sinto-me como um deus.

Lâ está Gloria Swanson, envolta em suas peles. E lá está Leslie Howard; como

parece jovem! Recordo tê-lo visto em um filme chamado Berkeley Square. Lembro-me

dele, viajando no tempo, de volta ao século XVIII.

De certa forma, faço algo parecido neste momento. Estar aqui, neste navio, é

como encontrar-me parcialmente nos anos 30. Isso se aplica também à música

irradiada em torno. Tem que ser música tocada naquela época, a bordo do Queen; tão

própia de seu tempo, tão magnificamente antiquada!

Um anúncio no painel avisa: “Batizado por Sua Majestade, a rainha, em 26 de

setembro de 1934.” Cinco meses antes de meu nascimento.

Sento-me no bar. Entretanto não vejo à minha volta

homens de negócios em seus trajes formais, nenhuma bebida na mesa à minha frente.

Apenas turistas e café puro em uma xícara de plástico, uma maçã dinamarquesa,

assada em Anaheim.

Será que ele se importa? Eu gostaria de saber. Aceitara o Queen esta queda da

graça? Ou isso o enfurece? Eu me enfureceria.

Olho para o balcão do bar, Como seria naquele tempo? Um gim e tônica para

nós, Harry. Um copo de vinho branco. J.B. com gelo, por favor. Agora, sanduíchessubmarino,

leite gelado e café fervendo.

Há um mural acima do balcão. Pessoas dançando, de mãos dadas, formando

uma longa fileira oval. Quem serão? Todas congeladas, como este navio.

Sinto uma sensação estranha no estômago. Algo como a impressão que se tem

ao ver-se um filme de corridas de um ponta de vista tomado do interior do carro; meu

corpo sabe que está sentado e imóvel, mas, visualmente, viajo em vertiginosa

velocidade, e o contraste irreconciliável me deixa com nauseas.

Aqui a sensação se inverte, mas é igualmente descontortante. Sou eu que me

movo, enquanto o ambiente do Queen permanece fixo. Tem sentido? Duvido,

Entretanto, este lugar começa a me deixar arrepiado.

Alojamentos dos oficiais. Não há mais ninguém aqui além de mim, entre dois

grupos de turistas. A sensação agora é intensa; algo pressionando meu plexo solar. Os

sons a acentuam; comunicados feitos então a bordo do Queen:

Srta. Molly Brown, por favor, queira entrar em contato com o Departamento de

Informações”. O Insubmersível?

Soa uma campainha enquanto olho o interior da sala do comandante. Seriam as

pessoas menores naquela época? As cadeiras me parecem de tamanho abaixo do

normal. Outro comunicado: Há um telegrama para Angela Hampton, no gabinete do

comissário de bordo”. Onde estará Angela agora? Teria recebido o telegrama? Espero

que as notícias tenham sido boas.

Convites na parede. Uniformes pendurados e imóveis, atrás de vitrines. Livros

nas prateleiras. Cortinas, relógios.

Uma escrivaninha e um pálido telefone branco. Tudo suspenso, estático.

Ponte de navegação: o Centro Nervoso, como eles o chamavam. Polida,

brilhante e morta. Aquelas rodas nunca mais tornarão a girar. Aquele telégrafo nunca

mais expedirá ordens para a sala de máquinas. Aquela tela de radar permanecerá

escura para sempre.

Tive de abandonar a parte do navio aberta aos turistas. Ainda me sinto estranho.

Estou sentado num banco, no museu. Aqui é tudo extremamente moderno, sem

sincronismo com os lugares onde estive. Sinto-me deprimido. Afinal, por que vim aqui?

Foi uma péssima idéia, Preciso de uma floresta, não de uma casa mortuária encaixada

entre terras.

Muito bem, tudo certo, irei até o fim. o meu sistema Nunca deixar nada pela

metade. Nunca pôr um livro de lado, por monótono que seja. Nunca abandonar uma

peça, filme ou concerto pelo meio, por tediosos que sejam. Coma tudo o que estiver no

prato. Seja polido com os mais velhos. Não chute os cachorros.

Levante-se, droga! Mova-se!

Estou caminhando pela sala principal do museu. Meus olhos são atraidos pela

gigantesca ampliação de uma primeira página de um jornal: The Long Beach Press-

Telegram. As manchetes anunciam: O CONGRESSO DECLARA GUERRA.

Meu Deus! Toda uma divisão a bordo deste navio! Bob também passou por essa

experiência. Comeu num bandejão como aquele, usou garfos e facas como aqueles.

Vestiu uma comprida capa marrom como aquela, usou um gorro de lã marrom, um

capacete com um revestimento daqueles, botas de combate iguais àquelas. Carregou

uma sacola de tecido grosso como aquela e dormiu num beliche como um daqueles,

com três camas uma em cima da outra. Essas seriam as cenas memoráveis de meu

irmão no Queen. Nada de jigas escocesas ou de passeios com um cão branco, de

orelhas pontudas, Apenas dezenove anos e cruzando um oceano, rumo à morte

provável.

Novamente a mesma sensação. Um caroço entorpecido, pendurado no

estômago.

Mais cenas memoráveis Dominós. Dados em um copo

de couro. Um lápis mecânico. Livros para cultos religiosos:

protestante, católico, judeu, mórmon, cientista-cristão -aquele livro velho, familiar.

Sinto-me como um arqueólogo fazendo escavações num templo. Mais fotografias. Sr. e

sra. Don Ameche. Harpo Marx. Eddie Cantor. Sir Cedric Hardwicke. Robert

Montgomery. Bob Hope. Laurel e Hardy. Churchill. Todos suspensos no tempo,

sorrindo eternamente.

Tenho que ir embora.

Estou novamente sentado em meu carro, esgotado, vazio. Será isso o que

sentem os paranormais quando entram numa casa que se encontra cheia da presença

do passado? Um desconforto coleante e distorcido aumenta em mim constantemente,

O passado está naquele navio. Duvido que perdure por muito tempo, com toda aquela

gente enxameando por lá. Deverá dissipar-se em breve, mas, no momento, está lá.

Bem, de novo, talvez fosse apenas a maçã dinamarquesa.

São duas e vinte, e estou rodando para San Diego, enquanto ouço uma música

fantástica, cacofônica; sem qualquer linha melódica ou conteúdo.

Céus, lá vou eu novamente! Retido por um trailer, forçado a mudar de faixa,

aumentando a velocidade e ultrapassando, lutando para firmar minha posição. Não

pode ser objetivo, R.C.?

A música terminou. Nem me lembro o que era. Agora, começou Ragtime para

onze instrumentos de sopro, de Stravinski. Desliguei o rádio.

A essa altura, Los Angeles já desapareceu de vista. Também desapareceram

Long Beach e o Queen. San Diego é uma fantasia. Aqui está a realidade: esta fita que

é a auto-estrada, desenrolando-se à minha frente.

Em que lugar de San Diego vou parar - - supondo, naturalmente, que San Diego

exista? Que diferença faz? Encontrarei um lugar e sairei para comer, talvez num

restaurante japonês. Verei um filme, lerei uma revista ou farei uma caminhada, tomarei

um drinque, arranjarei uma garota e, numa doca, atirando pedras nos barcos, decidirei

quando chegar lá. Os horários que vão para o diabo!

Ouça aqui, garoto, alegre-se! Vai ser um barato! Há meses e meses pela frente!

Há um restaurante de frutos do mar. Acho que começarei comendo peixeespada.

Abro minhas refeições com pratos de vichyssoise ‘‘Bon Vivant”.

San Juan Capistrano não funciona.

Experimento uma sublime sensação de aniquilar comunidades inteiras, com um

só golpe de vontade.

As nuvens à frente são como montanhas de neve, empilhadas em forma de

gigantescos castelos contra o céu azul.

Nenhum excêntrico, afinal. Acabei de ligar o rádio novamente. Tocam Les

préludes, de Chopin. A música do século XIX me convém mais.

As nuvens agora assemelham-se a fumaça, Como se o mundo estivesse

ardendo.

Aquela sensação está voltando ao meu estômago. Não tem sentido, agora que o

Queen ficou para trás.

Acho que, afinal de contas, foi a maçã dinamarquesa.

O tráfego se avoluma, quando entro em San Diego propriamente dita. Tenho

que me safar dele.

Não existe um lugar chamado Sea World por aqui? Acho que sim. Para ver uma

baleia saltando por um aro.

Centro da cidade. Estou ficando encurralado. Cartazes publicitários brotando

como cogumelos. Mal passa das quatro. Começo a ficar nervoso.

Por que vim aqui? Tudo agora é ilógico. Duzentos e seis quilômetros para quê?

Rumarei para o leste amanhã. Vou acordar cedo, dar um jeito na dor de cabeça

e partir para Denver.

Meu Deus, é como voltar a Los Angeles! Estou cercado de faixas pululando de

carros, luzes vermelhas piscando, rostos irritados de motoristas.

Ah! Urna ponte à frente. Pouco importa para onde me leve, desde que eu saia

disso.

A sinalização diz “Coronado”.

Dirijo diretamente contra o sol. Os raios me ofuscam. Um disco ígneo e dourado.

Penhascos à distância o oceano Pacífico.

O que será aquilo á beira da água? Uma estrutura imensa e fantástica.

Vou pagar o pedágio e dar uma espiada.

Acabei de dobrar à esquerda e entro na A Avenue. O lugar parece antigo. Há um

chalé inglês à minha direita. Acabou-se o trânsito. Rua sossegada, marginada de

árvores. Talvez eu possa pernoitar aqui. Deve existir um motel em algum lugar. Há uma

casa antiga, semelhante a uma mansão do século xix. Construída de tijolos; janelas

com sacada, chaminés gigantescas.

Será mais alta na fachada? Olho para aquela torre de telhado vermelho.

Não acredito.

Rodei pelo lugar errado. Estou num estacionamento, atrás do edifício. Deve ter

sido construído há sessenta ou setenta anos. É enorme. Cinco pavimentos, pintado de

branco, com teto de telhas vermelhas.

Preciso descobrir a fachada.

Há um motel no caminho, caso isso não seja - é um hotel!

Estou no quarto 527, olhando para o mar através da janela. O sol está quase se

pondo; é uma vivida fatia alaranjada acima do horizonte, à esquerda de uma escura

fileira de penhascos. Ninguém na faixa de praia cinza-pérola. Posso ver e ouvir as

ondas, um ribombar atroador. Passa pouco das quatro e meia. Este é um lugar tão

sossegado, que talvez fique aqui por mais de uma noite!

Preciso ver os arredores.

Embaciado pelo crepúsculo, o pátio parece irreal; amplo, com paredes curvas e

relvados verdejantes, bem aparados, O céu é como um pano de fundo pintado, de

estúdio. Talvez este seja o sul da Disneylândia.

Antes, cheguei com meu carro até a entrada do hotel e um empregado o

estacionou. Um porteiro tomou conta de minha bagagem; pareceu um tanto assustado

com o peso de minha segunda mala. Eu o segui por uma rampa revestida de carpete

vermelho até a sala de estar, contornei um banco

de metal que sustinha um vaso de plantas no centro, passei para o saguão, assinei o

livro de registro e fui conduzido por esse pátio. Havia pássaros fazendo tremenda

algazarra nas árvores, tão copadas, que nem mesmo pude vê-los.

Agora, as árvores estão quietas, o pátio está quieto. Contemplo-o da sacada do

quinto andar; olho pata as mesas com guarda-sóis entre canteiros floridos. Este é um

lugar quimérico.

Vejo uma bandeira americana, tremulando no alto da torre. O que haverá lá? Eu

gostaria de saber.

Estou faminto demais para esperar o jantar; às seis da tarde no Parlatório

Príncipe de Gales, às seis e meia no Salão do Diadema. São apenas cinco. Se eu

beber durante uma hora, ficarei fora dessa jogada, e não quero que isso aconteça.

Pretendo saborear este lugar.

Estou sentado no Salão do Diadema quase vazio, perto de uma das janelas

panorâmicas; perguntei e informaram que ainda podiam servir-me um almoço simples.

Anexo, fica o Salão da Coroa, usado apenas para banquetes, suponho. Lá fora, vejo o

lugar para onde me dirigia antes. Teria isso acontecido há quarenta minutos apenas?

Este salão é lindo! Paredes forradas de fazenda com uma tessitura vermelho-dourada,

tendo acima painéis de madeira de precioso acabamento, que se curvam para um teto

da altura de três ou quatro pavimentos. Mesas com toalhas brancas, velas acesas em

tubos amarelo-escuros, taças de metal esperando pelos hóspedes que virão jantar.

Tudo com aparência de extrema graciosidade.

A garçonete acabou de trazer minha sopa.

Tomo agora uma soberba e consistente sopa de feijão branco, com pedaços de

presunto. Delicioso. Estou realmente faminto. Poderá ser insípida, a longo prazo, mas

no momento é uma iguaria. Este salão fantástico. Esta sopa, quente e saborosa.

Pergunto-me se tenho dinheiro suficiente para ficar aqui indefinidamente. A vinte

e cinco dólares diários, minhas reservas não durariam muito. Suponho que eles tenham

preços especiais para hóspedes mensalistas, porém, ainda assim, eu chegaria à

indigência antes de partir.

Por quanto tempo este hotel esteve aqui? Há um papel com informações em

meu quarto; verei isso mais tarde. De qualquer modo, é uma construção antiga. A

caminho do saguão, percorrendo um corredor do porão que parte do Parlarório

Príncipe de Gales, passei por um bar antigo e maravilhoso, com um balcão palaciano;

tenho de tomar um drinque lá, amanhã. Também vi uma arcada com uma barbearia e

uma loja de jóias, espreitando de uma sala lateral, repleta de máquinas de jogos. Olhei

de relance para algumas fotos de época na parede. Também pretendo examiná-las

mais tarde. Depois que alimentar meu corpo esfomeado.

Agora está demasiado escuro para que se veja bem o exterior. Há árvores

sombrias nas proximidades, alguns carros estacionados e, além de tudo, as luzes

multicoloridas de San Diego, brilhando à distância. Na janela se reflete o imenso

anúncio luminoso, uma coroa de luzes suspensa na noite. Aqui não é como estar no

ancorado e invadido Queen Mary. Aqui é o Queen ainda dominando os mares.

Apenas um detalhe errado: a música. Inadequada. Devia ser algo mais suave.

Um quarteto de cordas, executando Lehár.

Estou sentado numa gigantesca cadeira de braços, no mezanino, acima do

saguão. À minha frente há um enorme candelabro, com fieiras de lâmpadas vermelhas

e colares de cristal pendendo da parte inferior, O teto é intrincado e de aparência

maciça, escuras seções apaineladas e extremamente polidas. Posso ver uma pesada

coluna apainelada, a escadaria principal e a porta de grades douradas do poço do

elevador. Vim por outra escadaria Havia silêncio nela e pude senti-lo na carne.

A poltrona é qualquer coisa de notável. O espaldar termina muito acima de

minha cabeça. Dois garotos rechonchudos flanqueiam seus arabescos. Ambos os

braços da cadeira terminam em dragões alados, cujas escamosas formas de serpente

se estendem até o assento. Onde os braços se juntam, na parte de trás, reclinam-se

duas indolentes figuras: um Baco de ar infantil, a outra, um Pã de olhar fixo e patas

peludas, tocando flauta.

Quem terá se sentado nesta poltrona antes de mim? Quantas pessoas já

espiaram para o saguão, através da balaustrada, observando homens e mulheres

sentados, de pé, conversando, entrando e saindo? Nos anos 30, 20 e 10.

Até mesmo na década de 1890?

Estou sentado na Sala de Descanso Vitoriana, com um drinque na mão, olhando

para o vitral de uma janela. Um belo aposento. Cabinas forradas em vermelho-vivo;

paredes que parecem veludo. Colunas apaineladas, quadrados apainelados no teto,

um lustre com pendentes de cristal.

Nove e vinte da noite. Depois de uma ducha, com as pernas cansadas, deito-me

na cama e leio a folha de informações. Este prédio foi construído em 1887. Incrível. E

eu sabia que algo nele me era familiar. Infelizmente, nada de déjà-vu. Billy Wilder o

usou para filmar Quanto mais quente melhor.

Várias citações do papel com informações:

“Estrutura semelhante à de um castelo” -

“O último dos hotéis à beira-mar, prodigamente concebido.”

“Um monumento ao passado.’

“Torrinhas, altas cúpulas, pilares de madeira trabalhada e decoração vitoriana.

Ouço um som que não ouvia desde criança: as batidas surdas de um radiador.

Silêncio espantoso nos corredores. Como se o próprio tempo houvesse se

acumulado neles, enchendo o ambiente.

Gostaria de saber se também este quarto ficou cheio. Haverá dentro dele algo

que sobrou dos anos passados?

Aquele carpete pontilhado de dourado-castanho-amarelo? Duvido. O banheiro?

Provavelmente, na época nem havia banheiros. As cadeiras de vime? Talvez.

Evidentemente, não as camas, mesas-de-cabeceira ou abajures; e Deus sabe que

tampouco o telefone. A estamparia das paredes? Improvável. As cortinas ou

venezianas? Nada disso. As próprias vidraças devem ter sido substituidas, não há

dúvida. A escrivaninha ou o espelho pendurado acima dela? Não creio. A cesta de lixo?

Certo. E que tal o aparelho de televisão? Ah, ah, ah!

Afinal, bem pouco do passado existe aqui. Uma lástima.

Meu nome é Richard Collier. Tenho trinta e seis anos e escrevo para a televisão.

Tenho um metro e oitenta e cinco de altura e peso oitenta e cinco quilos. Dizem que

sou parecido com Newman; talvez se refiram ao cardeal. Nasci no Brooklyn, a 20 de

fevereiro de 1935, quase fui para a Coréia, mas a guerra acabou antes, e diplomei-me

pela Universidade do Missouri, em 1957, como bacharel em jornalismo. Depois de

formado, trabalhei na ABC, em Nova York, comecei a vender scripts em 1958 e mudeime

para Los Angeles em 1960. Meu irmão transferiu sua gráfica para Los Angeles em

1965, e eu me mudei para a casa de hóspedes, nos fundos de sua casa, nesse mesmo

ano. Saí de lá esta manhã, porque vou morrer dentro de quatro a seis meses e achei

que pode-ria escrever um livro a esse respeito, enquanto viajo.

Gastei uma verborréia para dizer isso. Está bem, está dito. Tenho um tumor

inoperável, no lobo temporal. Sempre pensei que as dores de cabeça matinais fossem

provocadas pela tensão. Por fim, fui ao dr. Crosswell; Bob insistiu, ele mesmo me levou

de carro até lá. O grande e durão Bob, que dirige a firma com mão de ferro. Chorou

como criança, quando o dr. Crosswell nos contou. Eu, o que tinha o tumor, Bob, o que

chorou. Homem maravilhoso!

Tudo isso aconteceu há menos de duas semanas. Até então pensei que viveria

muito tempo ainda. Papai se foi aos sessenta e dois anos, mas apenas porque bebia

demais. Mamãe, aos setenta e três, saudável e ativa. Imaginei que teria tempo de

sobra para me casar e constituir família; jamais entrei em pânico, mesmo parecendo

nunca tomar conhecimento Dele. Agora, está liquidado. Raios X, punções na espinha,

resultados positivos. Fim para Collier.

Eu podia ter ficado com Bob e Mary. Faria tratamentos de raios X. Viveria alguns

meses a mais. Vetei tudo. Bastou-me ver o olhar que eles trocaram; um olhar dorido,

desajeitado e incômodo, aquele que as pessoas sempre parecem trocar na presença

dos moribundos. Vi que precisava fugir. Não podia ficar lá, vendo aquele olhar, dia

após dia.

Estou escrevendo esta parte, em vez de ditá-la em meu gravador. De certa forma, foi

um mau hábito que adquiri, o de produzir scripts inteiramente em fitas cassete. Não

ébom para um escritor perder a sensação de colocar palavras no papel.

Não posso ditar agora, pois estou ouvindo a Décima, de Mahler, com os fones

de ouvido. Ormandy, a Filadélfia. É um pouco difícil ditar se não ouvimos o som de

nossa voz.

Cook fez um trabalho fantástico, orquestrando os sketches. Soa exatamente

como Mahler. Talvez não com tanta riqueza, mas uma obra indiscutivelmente sua.

Não sei por que adoro a música de Mahler; ela apenas veio a mim. Ele está presente

na melodia. Como o passado que impregna este hotel, também Mahler impregna seu

trabalho. Está em minha cabeça neste momento. “Ele vive em seu trabalho” é uma

frase corriqueira, raramente pertinente. No caso de Mahler, é a verdade literal. Seu

espírito reside em sua musica.

Agora é o movimento final. Sem que eu possa evitar, surge aquela frouxidão no

canto dos olhos, degluto-a, e a emoção me dilata o peito.

Terá havido algum adeus à vida mais arrebatador, expresso em música?

Deixem-me morrer com Mahler na cabeça.

Olho para um rosto no espelho. Não o meu rosto, mas o de Paul Newman, por

volta de 1960. Olhei tanto tempo para ele, que me senti objetivo a esse respeito. As

pessoas costumam fazer isso às vezes; ficam olhando para o próprio reflexo no

espelho, até que — zás! — há um rosto desconhecido a olhá-las também. Por vezes,

também um rosto amedrontado que as contempla, tão estranho ele é.

A única coisa que me mantém na realidade são os lábios de Paul Newman que

se movem, e ele pronuncia as palavras que me ouço pronunciando. Portanto, deduzo

que o rosto seja meu, embora inexista qualquer senso de conexão com ele.

O garoto dono desse rosto era bonito; essa era a palavra usada, e ele a ouvia o

tempo todo. De que adiantou? Adultos - até mesmo estranhos - sorriam-lhe e, inclusive,

afagavam seus cabelos louros quase brancos enquanto lhe observavam as feições

angelicais. De que lhe adiantou? As garotas o olhavam também. Via de regra, de

esguelha. Por vezes, de frente, O garotinho perdeu a conta de seus rubores. E também

dos sangramentos; os valentões adoravam esmurrar aquele rosto. Infelizmente, o

garoto suportava bem o sofrimento. Assim foi, até que eles o encurralaram num canto,

a tal ponto que até mesmo ele perdeu o controle e revidou. Pobre garoto, que não

pedira aquele rosto! Jamais tentou tirar proveito disso. Felicitou-se por se tornar adulto,

fase em que a maioria dos valentões passa a empregar táticas menos óbvias.

Diabo, aqui estou falando do meu rosto. Por que fazer o jogo da terceira

pessoa? Sou eu, pessoal! Richard Collier. Muito atraente. Posso falar assim quanto

quiser. Não há ninguém ouvindo pelo buraco da fechadura. Aí está, mundo! Tolice! Que

bem fez a beleza ao sujeito atrás dela? Poderá salvá-lo? Esse rosto se erguerá para

liquidar o tumor traiçoeiro? Não há a menor possibilidade. Assim, em resumo, esse

rosto é inútil, porque não pôde manter seu dono neste mundo, nem um dia a mais do

que os que lhe foram determinados. Bem, as minhocas terão um belo piquenique

— Deus, que coisa desagradável de dizer!

Que coisa estúpida, idiota de dizer.

Quase meia-noite.

Deitado na escuridão, ouço o barulho das ondas. Como canhões disparando à

distância.

Estas são as piores horas.

Gosto deste lugar, mas, evidentemente, ficarei apenas alguns dias. De que

adiantaria outra coisa?

Dentro de poucos dias, levanto-me pela manhã e parto para Denver, tudo

apontando o leste.

E alguém aponta o oeste.

Não seja sentimental, Collier!

Quatro e vinte e sete da madrugada. Vou me levantar e beber água. Esse sabor

de cloro não me agrada em absoluto. Seria bom poder contar com algumas Sparklett,

como eu tinha em casa.

Casa?

2 comentários:

Anônimo disse...

Antes de vir, joguei uma moeda: cara, norte; coroa, sul.

E o tempo passa, porque o tempo é o trabalhador que nunca descansa. Meio triste esse início do livro. Fico pensando se no cotidiano não dou valor às pequenas cosias que acontecem a minha volta, mas como seria a vida sem essa correria? Talvez se tornasse monótono reparar todos os dias com o que a brisa brinca ou sem se importar com as batidas do relógio. Já reparou naquelas árvores velhas, de casca grossa, enraizadas e que parecem saber de tudo, são soberanas, cheias de si. Penso que tanto eu como você somos iguais a elas. Você deixaria tudo para trás para ter o destino decidido pelo lado de uma moeda? Foi corajosa esta atitude? Ou a real coragem é enfrentar o cotidiano tedioso e de surpresas desagradáveis? Eu não sei.
Acabei de descobrir que Stravinski é bom, não conhecia.

“Por quanto tempo este hotel esteve aqui?” Por quanto tempo as coisas estão ali na nossa frente e não vemos, ou talvez vemos o que realmente deveria ser visto. Percebo que não estou boa para conclusões. Mas uma palavra interessante eu posso tirar deste primeiro texto... inoperável...ele não tinha, mas você tem escolha.

Enfim, foi interessante... gostei more de partilhar o primeiro dia com você, é legal para fazer uma reflexão, pode ser que se torne um hábito nosso.

Sua Elise

Anônimo disse...

Eu acredito que em nossa vida, esse exercicio diário do reparar as coisas ao redor deveria ser feito. Paulo Coelho o aconselha em um dos exercicios do Diário de um Mago. Fazer as coisas do seu sdia a dia nuam velocidade menor, reparar o seu respirar, seu caminhar, pequenos detalhes que a gente deixa passar pela correria do dia a dia, e nestas pequenas coisas as ezes pode estar algo que simbolize muito.. não sei.. acho que na correria do dia a dia eu tb deixo passar muita coisa. No dia de trabalho atarefado e exaustivo, no retornar para casa estressante, no realizar de hobby para varias pessoas, eu acredito pecar e não demonstrar muitas coisas que se fizesse com mais calma talvez conseguisse..

Eu espero sim que se torne um hábito more. Qualquer coisa que faço com vc é maravilhoso pra mim, só pelo fato de fazermos juntos.

Seu Rich