Zona rural de Los Angeles. O terreno se afunda de um lado e, após a valeta da
estrada, eleva-se na margem aposta. Manhã de domingo. Tranqüila. As aroeiras que
margeiam a estrada agitam sua folhagem brisa.
Quase fora, agora. Longe de Bob e de Mary, de sua casa, de minha casinha de
hóspedes nos fundos; também de Kit, que me visitava enquanto eu trabalhava, batia os
cascos, bufava, sacudia a cauda, gemia e, como falhasse tudo o mais para chamar
minha atenção e potencial alimento, batia o focinho na parede. Acabou-se.
Estou no estacionamento vazio, ao lado dos Correios. É a última visita que faço à
minha caixa postal. Enviei pelo correio meus dois últimos pagamentos para Ma Beli e
The Broadway.
Estou descendo a Long Valley Road em meu carro; sol brilhante e céu azul.
Passo pelas cercas, com suas três ripas horizontais pintadas de branco. Um cavalo me
avalia.
Espero, enquanto lavam meu carro. Há um vazio estranho. Estarão todos na
igreja? Um Mercedes-Benz bege acaba de avançar aos pouquinhos. Eu sonhava ter
um, algum dia. Outro projeto posto de lado. Tomo um caldo de carne, comprado na
máquina automática. Aí vem meu Galaxie azul-escuro. Sóbrio, recomendável e de
preço médio; o tipo de carro ideal para mim. É acolhido pelas mangueiras, que
esguicham longos e finos jatos de espuma.
A última valeta e o quebra-molas final. Mais adiante, a Ventura Freeway e o
mundo. Na tabuleta acima da casa do porteiro, está escrito Adios, amigos. Adeus,
Hidden Hills!
Espero o sinal mudar, junto ao Topanga Boulevard. Ele abriu agora. Uma
rápidamanobra para a esquerda -diminuo a marcha dobro à direita - subo a rampa e
desemboco na Ventura Freeway. Adeus, Woodland Hills! Um dia francamente
maravilhoso. Céu azul radiante; nuvens ralas e pâlidas, quc parecem bandeirolas. O ar
é como vinho branco gelado. Passo pelo Gemco e pelo Valley Music Theatre. Ambos
ficam para trás, deixam de ser reais. Meu jogo agora é o solipsismo.
Antes de vir, joguei uma moeda: cara, norte; coroa, sul. Sigo para San Diego. E
curioso pensar que, se a moeda girasse um-a vez mais, eu estaria chegando a San
Francisco no fim desta tarde.
Minha bagagem é pequena: duas malas. Num-a, estão o terno marrom-escuro, o
paletó esporte verde-escuro, calças, algumas camisas, roupa de baixo, meias, sapatos
e lenços, bem como minha pequena bolsa de zíper, com artigos de toalete. Na outra,
minha vitrola, fones de ouvido e dez sinfonias de Mahler. A meu lado, o velho e fiel
gravador. lenho ainda a roupa do corpo; o indispensável. Exceto, naturalmente os
cheques de viagem e dinheiro vivo. Cinco mil setecentos e noventa e dois dólares e
trinta e quatro cents.
Engraçado! Quando fui ao Bank of America, na sexta-feira, e fiquei na fila,
comecei a impacientar-me. Recordeime então. Não preciso mais me impacientar. Olhei
para todas aquelas pessoas e senti pena delas. Ainda eram escravas do relógio e do
calendário. Dispensado de qualquer obrigação, voltei a acalmar-me.
Acabei de perder o desvio para a San Diego Freeway. Calma. Posso
perfeitamente continuar com meu esquema livre. Acertarei a situação de novo, indo até
o centro da cidade, pegando a Harbor Freeway e alcançando San Diego por outro
caminho.
Um cartaz mais adiante recomenda a Disneylândia. Devo fazer uma visita final
ao reino da fantasia? Não fui mais lá desde 1969, quando mamãe nos visitou. Então,
eu, Bob, Mary e seus filhos a levamos à Disneylândia. Não, a Disneylândia está fora do
programa. Para mim, a única atração lá seria o Castelo Mal-Assombrado.
Outro cartaz. Anuncia: “Aberto agora - O Queen recomenda Long Beach’’. Isso parece
mais provável. Nunca estive a bordo do Queen; Bob foi nele para o estrangeiro,
durante a Segunda Guerra Mundial. Por que não dar uma espiada?
A minha esquerda, o obelisco, a enorme e negra lápide:
Universal Tower. Quantas vezes estive lá, a serviço? É curioso perceber que nunca
mais verei outro produtor, nunca mais prepararei outro script. Nunca mais precisarei
telefonar para meu agente. ‘Ei, pelo amor de Deus, onde está meu cheque? Fiquei na
lona!” Eis aí um pensamento tranqüilo. Também uma perfeita cronometragem; deixálos
quando, afinal das contas, mal existe alguém trabalhando.
Quase chegando ao Hollywood Bowl. Não vou lá desde agosto último. Levei
aquela secretária da Screen Gems. Como era mesmo o nome dela? Joan, June, Jane?
Não consigo me lembrar. Recordo apenas que ela disse ser louca por musica clássica.
Na verdade, a entediava. Da mesma forma que as ninharias no estilo do Bowl.
Concerto número 2 de Rakhmanínov? Joanjunejane nunca ouvira falar nisso.
Qualquer um imaginaria que, após todos esses anos, eu teria conhecido alguém.
Carma negativo? Mau negócio. Nunca, em toda a vida, encontrar uma mulher que nos
agrade? Incrível. Deve existir algo escondido no meu passado, sem dúvida. Obsessão
com meu velocípede. Buuu para Freud. É possível aceitar-se o fato de eu nunca ter
encontrado uma mulher a quem pudesse amar?
Estou no tráfego pesado, perto da Harbor Freeway. Os carros me cercam por
todos os lados. Homens e mulheres em cada canto. Não me conhecem, e não os
conheço. Há bastante nevoeiro aqui embaixo. Espero que o tempo esteja claro em San
Diego. Nunca estive lá; não sei como é. Poder-se-ia descrever a morte dessa maneira.
Music Center. Um lugar estonteante. Fui lá, faz uma semana ou pouco mais,
a.C. — antes de Crosswell. Executaram a Segunda sinfonia de Mahler. Mehta fez um
belo trabalho. Quando o coro entrou suavemente, no movimento final, comecei a vibrar.
Quantas cidades verei? Denver? Salt Lake City? Kansas City? Terei de ficar um
ou dois dias em Columbia.
Um pensamento divertido. Vou me tornar criminoso, pois não pretendo mais
mandar pelo correio nenhum pagamento do carro. E sabe de uma coisa, sr. Ford?
Estou pouco ligando.
Deus!
Um caminhão mudou de rumo, bem na minha frente, e fui forçado a trocar de
faixa rapidamente. Meu coração disparou, pois não houve tempo de ver se vinha
alguem a minha traseira, naquela faixa.
Ainda sinto o coração batendo forte, mas estou aliviado por saber-me a salvo.
Até que ponto alguém pode ser tão imprudente?
Estou vendo as trés chaminés vermelhas, de topo negro. Será que o cimentaram
ali? Já lamento sua condição. Enraizar um navio desses, em algum lugar, é como
empalhar uma águia. A figura pode ser imponente, mas seus dias de glória terminaram.
O Queen acabou de falar; um brado ensurdecedor, que sacode o ar. Como é
grande! Parece o edifício Empire State deitado de lado.
Fiz o pagamento na cabine vermelha, subi pela escada rolante e agora caminho
devagar e com dificuldade, ao longo da passarela coberta, aproximando-me do navio.
À minha direita está o porto de Long Beach, com suas águas azuis, movendo-se
rapidamente. À esquerda, um garotinho, que olha para mim. Quem será o homem
engraçado, falando numa caixa preta?
Outra escada rolante à frente, bem comprida. Qual será a altura do Queen?
Calculo uns vinte andares.
Estou sentado no salão de estar principal. Madeira trabalhada no estilo da
década de 30. É curioso que achassem isso elegante. Colunas imensas. Mesas,
cadeiras. Uma pista de dança. Um enorme piano de cauda no palco.
Uma arcada; lojas circundando uma praça pavimentada de ladrilhos. Luzes no
alto, do tamanho de rodas de caminhão. Mesas, poltronas e sofás. Tudo isso flutuou
um dia?
Espantoso! Seria como no Titanic? Tento imaginar um lugar como este, engolido
pelo mar. uma visão aterradora.
O que me agradaria era esgueirar-me para a parte de baixo; para a parte
escura, onde ficam os camarotes. Caminhar ao longo dos corredores sombrios e
silenciosos. Serão mal-assombradas?
Não irei lá, evidentemente. Obedecerei aos regulamentos.
Os velhos hábitos custam mais a morrer que os seguintes.
No anteparo divisório, uma ampliação fotográfica. Gertrude Lawrence com seu
cachorro branco. Como aquele que apareceu
atarracado e de orelhas pontudas.
A srta. Lawrence sorri. Não percebe, enquanto passeia pelo convés do Queen,
que a mortalidade caminha rente às suas costas.
Vejo fotografias em um painel, intituladas “Cenas memoráveis.”
David Niven, dançando uma jiga escocesa. Parece muito contente. Ele não sabe
que sua esposa morrerá
desconfortavelmente, sinto-me como um deus.
Lâ está Gloria Swanson, envolta em suas peles. E lá está Leslie Howard; como
parece jovem! Recordo tê-lo visto em um filme chamado Berkeley Square. Lembro-me
dele, viajando no tempo, de volta ao século XVIII.
De certa forma, faço algo parecido neste momento. Estar aqui, neste navio, é
como encontrar-me parcialmente nos anos 30. Isso se aplica também à música
irradiada
própia de seu tempo, tão magnificamente antiquada!
Um anúncio no painel avisa: “Batizado por Sua Majestade, a rainha, em 26 de
setembro de
Sento-me no bar. Entretanto não vejo à minha volta
homens de negócios em seus trajes formais, nenhuma bebida na mesa à minha frente.
Apenas turistas e café puro em uma xícara de plástico, uma maçã dinamarquesa,
assada em Anaheim.
Será que ele se importa? Eu gostaria de saber. Aceitara o Queen esta queda da
graça? Ou isso o enfurece? Eu me enfureceria.
Olho para o balcão do bar, Como seria naquele tempo? Um gim e tônica para
nós, Harry. Um copo de vinho branco. J.B. com gelo, por favor. Agora, sanduíchessubmarino,
leite gelado e café fervendo.
Há um mural acima do balcão. Pessoas dançando, de mãos dadas, formando
uma longa fileira oval. Quem serão? Todas congeladas, como este navio.
Sinto uma sensação estranha no estômago. Algo como a impressão que se tem
ao ver-se um filme de corridas de um ponta de vista tomado do interior do carro; meu
corpo sabe que está sentado e imóvel, mas, visualmente, viajo em vertiginosa
velocidade, e o contraste irreconciliável me deixa com nauseas.
Aqui a sensação se inverte, mas é igualmente descontortante. Sou eu que me
movo, enquanto o ambiente do Queen permanece fixo. Tem sentido? Duvido,
Entretanto, este lugar começa a me deixar arrepiado.
Alojamentos dos oficiais. Não há mais ninguém aqui além de mim, entre dois
grupos de turistas. A sensação agora é intensa; algo pressionando meu plexo solar. Os
sons a acentuam; comunicados feitos então a bordo do Queen:
Srta. Molly Brown, por favor, queira entrar em contato com o Departamento de
Informações”. O Insubmersível?
Soa uma campainha enquanto olho o interior da sala do comandante. Seriam as
pessoas menores naquela época? As cadeiras me parecem de tamanho abaixo do
normal. Outro comunicado: Há um telegrama para Angela Hampton, no gabinete do
comissário de bordo”. Onde estará Angela agora? Teria recebido o telegrama? Espero
que as notícias tenham sido boas.
Convites na parede. Uniformes pendurados e imóveis, atrás de vitrines. Livros
nas prateleiras. Cortinas, relógios.
Uma escrivaninha e um pálido telefone branco. Tudo suspenso, estático.
Ponte de navegação: o Centro Nervoso, como eles o chamavam. Polida,
brilhante e morta. Aquelas rodas nunca mais tornarão a girar. Aquele telégrafo nunca
mais expedirá ordens para a sala de máquinas. Aquela tela de radar permanecerá
escura para sempre.
Tive de abandonar a parte do navio aberta aos turistas. Ainda me sinto estranho.
Estou sentado num banco, no museu. Aqui é tudo extremamente moderno, sem
sincronismo com os lugares onde estive. Sinto-me deprimido. Afinal, por que vim aqui?
Foi uma péssima idéia, Preciso de uma floresta, não de uma casa mortuária encaixada
entre terras.
Muito bem, tudo certo, irei até o fim. o meu sistema Nunca deixar nada pela
metade. Nunca pôr um livro de lado, por monótono que seja. Nunca abandonar uma
peça, filme ou concerto pelo meio, por tediosos que sejam. Coma tudo o que estiver no
prato. Seja polido com os mais velhos. Não chute os cachorros.
Levante-se, droga! Mova-se!
Estou caminhando pela sala principal do museu. Meus olhos são atraidos pela
gigantesca ampliação de uma primeira página de um jornal: The Long Beach Press-
Telegram. As manchetes anunciam: O CONGRESSO DECLARA GUERRA.
Meu Deus! Toda uma divisão a bordo deste navio! Bob também passou por essa
experiência. Comeu num bandejão como aquele, usou garfos e facas como aqueles.
Vestiu uma comprida capa marrom como aquela, usou um gorro de lã marrom, um
capacete com um revestimento daqueles, botas de combate iguais àquelas. Carregou
uma sacola de tecido grosso como aquela e dormiu num beliche como um daqueles,
com três camas uma em cima da outra. Essas seriam as cenas memoráveis de meu
irmão no Queen. Nada de jigas escocesas ou de passeios com um cão branco, de
orelhas pontudas, Apenas dezenove anos e cruzando um oceano, rumo à morte
provável.
Novamente a mesma sensação. Um caroço entorpecido, pendurado no
estômago.
Mais cenas memoráveis Dominós. Dados em um copo
de couro. Um lápis mecânico. Livros para cultos religiosos:
protestante, católico, judeu, mórmon, cientista-cristão -aquele livro velho, familiar.
Sinto-me como um arqueólogo fazendo escavações num templo. Mais fotografias. Sr. e
sra. Don Ameche. Harpo Marx. Eddie Cantor. Sir Cedric Hardwicke. Robert
Montgomery. Bob Hope. Laurel e Hardy. Churchill. Todos suspensos no tempo,
sorrindo eternamente.
Tenho que ir embora.
Estou novamente sentado em meu carro, esgotado, vazio. Será isso o que
sentem os paranormais quando entram numa casa que se encontra cheia da presença
do passado? Um desconforto coleante e distorcido aumenta em mim constantemente,
O passado está naquele navio. Duvido que perdure por muito tempo, com toda aquela
gente enxameando por lá. Deverá dissipar-se em breve, mas, no momento, está lá.
Bem, de novo, talvez fosse apenas a maçã dinamarquesa.
São duas e vinte, e estou rodando para San Diego, enquanto ouço uma música
fantástica, cacofônica; sem qualquer linha melódica ou conteúdo.
Céus, lá vou eu novamente! Retido por um trailer, forçado a mudar de faixa,
aumentando a velocidade e ultrapassando, lutando para firmar minha posição. Não
pode ser objetivo, R.C.?
A música terminou. Nem me lembro o que era. Agora, começou Ragtime para
onze instrumentos de sopro, de Stravinski. Desliguei o rádio.
A essa altura, Los Angeles já desapareceu de vista. Também desapareceram
Long Beach e o Queen. San Diego é uma fantasia. Aqui está a realidade: esta fita que
é a auto-estrada, desenrolando-se à minha frente.
Em que lugar de San Diego vou parar - - supondo, naturalmente, que San Diego
exista? Que diferença faz? Encontrarei um lugar e sairei para comer, talvez num
restaurante japonês. Verei um filme, lerei uma revista ou farei uma caminhada, tomarei
um drinque, arranjarei uma garota e, numa doca, atirando pedras nos barcos, decidirei
quando chegar lá. Os horários que vão para o diabo!
Ouça aqui, garoto, alegre-se! Vai ser um barato! Há meses e meses pela frente!
Há um restaurante de frutos do mar. Acho que começarei comendo peixeespada.
Abro minhas refeições com pratos de vichyssoise ‘‘Bon Vivant”.
San Juan Capistrano não funciona.
Experimento uma sublime sensação de aniquilar comunidades inteiras, com um
só golpe de vontade.
As nuvens à frente são como montanhas de neve, empilhadas em forma de
gigantescos castelos contra o céu azul.
Nenhum excêntrico, afinal. Acabei de ligar o rádio novamente. Tocam Les
préludes, de Chopin. A música do século XIX me convém mais.
As nuvens agora assemelham-se a fumaça, Como se o mundo estivesse
ardendo.
Aquela sensação está voltando ao meu estômago. Não tem sentido, agora que o
Queen ficou para trás.
Acho que, afinal de contas, foi a maçã dinamarquesa.
O tráfego se avoluma, quando entro
que me safar dele.
Não existe um lugar chamado Sea World por aqui? Acho que sim. Para ver uma
baleia saltando por um aro.
Centro da cidade. Estou ficando encurralado. Cartazes publicitários brotando
como cogumelos. Mal passa das quatro. Começo a ficar nervoso.
Por que vim aqui? Tudo agora é ilógico. Duzentos e seis quilômetros para quê?
Rumarei para o leste amanhã. Vou acordar cedo, dar um jeito na dor de cabeça
e partir para Denver.
Meu Deus, é como voltar a Los Angeles! Estou cercado de faixas pululando de
carros, luzes vermelhas piscando, rostos irritados de motoristas.
Ah! Urna ponte à frente. Pouco importa para onde me leve, desde que eu saia
disso.
A sinalização diz “Coronado”.
Dirijo diretamente contra o sol. Os raios me ofuscam. Um disco ígneo e dourado.
Penhascos à distância o oceano Pacífico.
O que será aquilo á beira da água? Uma estrutura imensa e fantástica.
Vou pagar o pedágio e dar uma espiada.
Acabei de dobrar à esquerda e entro na A Avenue. O lugar parece antigo. Há um
chalé inglês à minha direita. Acabou-se o trânsito. Rua sossegada, marginada de
árvores. Talvez eu possa pernoitar aqui. Deve existir um motel em algum lugar. Há uma
casa antiga, semelhante a uma mansão do século xix. Construída de tijolos; janelas
com sacada, chaminés gigantescas.
Será mais alta na fachada? Olho para aquela torre de telhado vermelho.
Não acredito.
Rodei pelo lugar errado. Estou num estacionamento, atrás do edifício. Deve ter
sido construído há sessenta ou setenta anos. É enorme. Cinco pavimentos, pintado de
branco, com teto de telhas vermelhas.
Preciso descobrir a fachada.
Há um motel no caminho, caso isso não seja - é um hotel!
Estou no quarto 527, olhando para o mar através da janela. O sol está quase se
pondo; é uma vivida fatia alaranjada acima do horizonte, à esquerda de uma escura
fileira de penhascos. Ninguém na faixa de praia cinza-pérola. Posso ver e ouvir as
ondas, um ribombar atroador. Passa pouco das quatro e meia. Este é um lugar tão
sossegado, que talvez fique aqui por mais de uma noite!
Preciso ver os arredores.
Embaciado pelo crepúsculo, o pátio parece irreal; amplo, com paredes curvas e
relvados verdejantes, bem aparados, O céu é como um pano de fundo pintado, de
estúdio. Talvez este seja o sul da Disneylândia.
Antes, cheguei com meu carro até a entrada do hotel e um empregado o
estacionou. Um porteiro tomou conta de minha bagagem; pareceu um tanto assustado
com o peso de minha segunda mala. Eu o segui por uma rampa revestida de carpete
vermelho até a sala de estar, contornei um banco
de metal que sustinha um vaso de plantas no centro, passei para o saguão, assinei o
livro de registro e fui conduzido por esse pátio. Havia pássaros fazendo tremenda
algazarra nas árvores, tão copadas, que nem mesmo pude vê-los.
Agora, as árvores estão quietas, o pátio está quieto. Contemplo-o da sacada do
quinto andar; olho pata as mesas com guarda-sóis entre canteiros floridos. Este é um
lugar quimérico.
Vejo uma bandeira americana, tremulando no alto da torre. O que haverá lá? Eu
gostaria de saber.
Estou faminto demais para esperar o jantar; às seis da tarde no Parlatório
Príncipe de Gales, às seis e meia no Salão do Diadema. São apenas cinco. Se eu
beber durante uma hora, ficarei fora dessa jogada, e não quero que isso aconteça.
Pretendo saborear este lugar.
Estou sentado no Salão do Diadema quase vazio, perto de uma das janelas
panorâmicas; perguntei e informaram que ainda podiam servir-me um almoço simples.
Anexo, fica o Salão da Coroa, usado apenas para banquetes, suponho. Lá fora, vejo o
lugar para onde me dirigia antes. Teria isso acontecido há quarenta minutos apenas?
Este salão é lindo! Paredes forradas de fazenda com uma tessitura vermelho-dourada,
tendo acima painéis de madeira de precioso acabamento, que se curvam para um teto
da altura de três ou quatro pavimentos. Mesas com toalhas brancas, velas acesas em
tubos amarelo-escuros, taças de metal esperando pelos hóspedes que virão jantar.
Tudo com aparência de extrema graciosidade.
A garçonete acabou de trazer minha sopa.
Tomo agora uma soberba e consistente sopa de feijão branco, com pedaços de
presunto. Delicioso. Estou realmente faminto. Poderá ser insípida, a longo prazo, mas
no momento é uma iguaria. Este salão fantástico. Esta sopa, quente e saborosa.
Pergunto-me se tenho dinheiro suficiente para ficar aqui indefinidamente. A vinte
e cinco dólares diários, minhas reservas não durariam muito. Suponho que eles tenham
preços especiais para hóspedes mensalistas, porém, ainda assim, eu chegaria à
indigência antes de partir.
Por quanto tempo este hotel esteve aqui? Há um papel com informações em
meu quarto; verei isso mais tarde. De qualquer modo, é uma construção antiga. A
caminho do saguão, percorrendo um corredor do porão que parte do Parlarório
Príncipe de Gales, passei por um bar antigo e maravilhoso, com um balcão palaciano;
tenho de tomar um drinque lá, amanhã. Também vi uma arcada com uma barbearia e
uma loja de jóias, espreitando de uma sala lateral, repleta de máquinas de jogos. Olhei
de relance para algumas fotos de época na parede. Também pretendo examiná-las
mais tarde. Depois que alimentar meu corpo esfomeado.
Agora está demasiado escuro para que se veja bem o exterior. Há árvores
sombrias nas proximidades, alguns carros estacionados e, além de tudo, as luzes
multicoloridas de San Diego, brilhando à distância. Na janela se reflete o imenso
anúncio luminoso, uma coroa de luzes suspensa na noite. Aqui não é como estar no
ancorado e invadido Queen Mary. Aqui é o Queen ainda dominando os mares.
Apenas um detalhe errado: a música. Inadequada. Devia ser algo mais suave.
Um quarteto de cordas, executando Lehár.
Estou sentado numa gigantesca cadeira de braços, no mezanino, acima do
saguão. À minha frente há um enorme candelabro, com fieiras de lâmpadas vermelhas
e colares de cristal pendendo da parte inferior, O teto é intrincado e de aparência
maciça, escuras seções apaineladas e extremamente polidas. Posso ver uma pesada
coluna apainelada, a escadaria principal e a porta de grades douradas do poço do
elevador. Vim por outra escadaria Havia silêncio nela e pude senti-lo na carne.
A poltrona é qualquer coisa de notável. O espaldar termina muito acima de
minha cabeça. Dois garotos rechonchudos flanqueiam seus arabescos. Ambos os
braços da cadeira terminam em dragões alados, cujas escamosas formas de serpente
se estendem até o assento. Onde os braços se juntam, na parte de trás, reclinam-se
duas indolentes figuras: um Baco de ar infantil, a outra, um Pã de olhar fixo e patas
peludas, tocando flauta.
Quem terá se sentado nesta poltrona antes de mim? Quantas pessoas já
espiaram para o saguão, através da balaustrada, observando homens e mulheres
sentados, de pé, conversando, entrando e saindo? Nos anos 30, 20 e 10.
Até mesmo na década de 1890?
Estou sentado na Sala de Descanso Vitoriana, com um drinque na mão, olhando
para o vitral de uma janela. Um belo aposento. Cabinas forradas em vermelho-vivo;
paredes que parecem veludo. Colunas apaineladas, quadrados apainelados no teto,
um lustre com pendentes de cristal.
Nove e vinte da noite. Depois de uma ducha, com as pernas cansadas, deito-me
na cama e leio a folha de informações. Este prédio foi construído em 1887. Incrível. E
eu sabia que algo nele me era familiar. Infelizmente, nada de déjà-vu. Billy Wilder o
usou para filmar Quanto mais quente melhor.
Várias citações do papel com informações:
“Estrutura semelhante à de um castelo” -
“O último dos hotéis à beira-mar, prodigamente concebido.”
“Um monumento ao passado.’
“Torrinhas, altas cúpulas, pilares de madeira trabalhada e decoração vitoriana.
Ouço um som que não ouvia desde criança: as batidas surdas de um radiador.
Silêncio espantoso nos corredores. Como se o próprio tempo houvesse se
acumulado neles, enchendo o ambiente.
Gostaria de saber se também este quarto ficou cheio. Haverá dentro dele algo
que sobrou dos anos passados?
Aquele carpete pontilhado de dourado-castanho-amarelo? Duvido. O banheiro?
Provavelmente, na época nem havia banheiros. As cadeiras de vime? Talvez.
Evidentemente, não as camas, mesas-de-cabeceira ou abajures; e Deus sabe que
tampouco o telefone. A estamparia das paredes? Improvável. As cortinas ou
venezianas? Nada disso. As próprias vidraças devem ter sido substituidas, não há
dúvida. A escrivaninha ou o espelho pendurado acima dela? Não creio. A cesta de lixo?
Certo. E que tal o aparelho de televisão? Ah, ah, ah!
Afinal, bem pouco do passado existe aqui. Uma lástima.
Meu nome é Richard Collier. Tenho trinta e seis anos e escrevo para a televisão.
Tenho um metro e oitenta e cinco de altura e peso oitenta e cinco quilos. Dizem que
sou parecido com Newman; talvez se refiram ao cardeal. Nasci no Brooklyn, a 20 de
fevereiro de 1935, quase fui para a Coréia, mas a guerra acabou antes, e diplomei-me
pela Universidade do Missouri, em 1957, como bacharel
formado, trabalhei na ABC,
para Los Angeles em 1960. Meu irmão transferiu sua gráfica para Los Angeles em
1965, e eu me mudei para a casa de hóspedes, nos fundos de sua casa, nesse mesmo
ano. Saí de lá esta manhã, porque vou morrer dentro de quatro a seis meses e achei
que pode-ria escrever um livro a esse respeito, enquanto viajo.
Gastei uma verborréia para dizer isso. Está bem, está dito. Tenho um tumor
inoperável, no lobo temporal. Sempre pensei que as dores de cabeça matinais fossem
provocadas pela tensão. Por fim, fui ao dr. Crosswell; Bob insistiu, ele mesmo me levou
de carro até lá. O grande e durão Bob, que dirige a firma com mão de ferro. Chorou
como criança, quando o dr. Crosswell nos contou. Eu, o que tinha o tumor, Bob, o que
chorou. Homem maravilhoso!
Tudo isso aconteceu há menos de duas semanas. Até então pensei que viveria
muito tempo ainda. Papai se foi aos sessenta e dois anos, mas apenas porque bebia
demais. Mamãe, aos setenta e três, saudável e ativa. Imaginei que teria tempo de
sobra para me casar e constituir família; jamais entrei em pânico, mesmo parecendo
nunca tomar conhecimento Dele. Agora, está liquidado. Raios X, punções na espinha,
resultados positivos. Fim para Collier.
Eu podia ter ficado com Bob e Mary. Faria tratamentos de raios X. Viveria alguns
meses a mais. Vetei tudo. Bastou-me ver o olhar que eles trocaram; um olhar dorido,
desajeitado e incômodo, aquele que as pessoas sempre parecem trocar na presença
dos moribundos. Vi que precisava fugir. Não podia ficar lá, vendo aquele olhar, dia
após dia.
Estou escrevendo esta parte, em vez de ditá-la em meu gravador. De certa forma, foi
um mau hábito que adquiri, o de produzir scripts inteiramente em fitas cassete. Não
ébom para um escritor perder a sensação de colocar palavras no papel.
Não posso ditar agora, pois estou ouvindo a Décima, de Mahler, com os fones
de ouvido. Ormandy, a Filadélfia. É um pouco difícil ditar se não ouvimos o som de
nossa voz.
Cook fez um trabalho fantástico, orquestrando os sketches. Soa exatamente
como Mahler. Talvez não com tanta riqueza, mas uma obra indiscutivelmente sua.
Não sei por que adoro a música de Mahler; ela apenas veio a mim. Ele está presente
na melodia. Como o passado que impregna este hotel, também Mahler impregna seu
trabalho. Está em minha cabeça neste momento. “Ele vive em seu trabalho” é uma
frase corriqueira, raramente pertinente. No caso de Mahler, é a verdade literal. Seu
espírito reside em sua musica.
Agora é o movimento final. Sem que eu possa evitar, surge aquela frouxidão no
canto dos olhos, degluto-a, e a emoção me dilata o peito.
Terá havido algum adeus à vida mais arrebatador, expresso em música?
Deixem-me morrer com Mahler na cabeça.
Olho para um rosto no espelho. Não o meu rosto, mas o de Paul Newman, por
volta de 1960. Olhei tanto tempo para ele, que me senti objetivo a esse respeito. As
pessoas costumam fazer isso às vezes; ficam olhando para o próprio reflexo no
espelho, até que — zás! — há um rosto desconhecido a olhá-las também. Por vezes,
também um rosto amedrontado que as contempla, tão estranho ele é.
A única coisa que me mantém na realidade são os lábios de Paul Newman que
se movem, e ele pronuncia as palavras que me ouço pronunciando. Portanto, deduzo
que o rosto seja meu, embora inexista qualquer senso de conexão com ele.
O garoto dono desse rosto era bonito; essa era a palavra usada, e ele a ouvia o
tempo todo. De que adiantou? Adultos - até mesmo estranhos - sorriam-lhe e, inclusive,
afagavam seus cabelos louros quase brancos enquanto lhe observavam as feições
angelicais. De que lhe adiantou? As garotas o olhavam também. Via de regra, de
esguelha. Por vezes, de frente, O garotinho perdeu a conta de seus rubores. E também
dos sangramentos; os valentões adoravam esmurrar aquele rosto. Infelizmente, o
garoto suportava bem o sofrimento. Assim foi, até que eles o encurralaram num canto,
a tal ponto que até mesmo ele perdeu o controle e revidou. Pobre garoto, que não
pedira aquele rosto! Jamais tentou tirar proveito disso. Felicitou-se por se tornar adulto,
fase em que a maioria dos valentões passa a empregar táticas menos óbvias.
Diabo, aqui estou falando do meu rosto. Por que fazer o jogo da terceira
pessoa? Sou eu, pessoal! Richard Collier. Muito atraente. Posso falar assim quanto
quiser. Não há ninguém ouvindo pelo buraco da fechadura. Aí está, mundo! Tolice! Que
bem fez a beleza ao sujeito atrás dela? Poderá salvá-lo? Esse rosto se erguerá para
liquidar o tumor traiçoeiro? Não há a menor possibilidade. Assim, em resumo, esse
rosto é inútil, porque não pôde manter seu dono neste mundo, nem um dia a mais do
que os que lhe foram determinados. Bem, as minhocas terão um belo piquenique
— Deus, que coisa desagradável de dizer!
Que coisa estúpida, idiota de dizer.
Quase meia-noite.
Deitado na escuridão, ouço o barulho das ondas. Como canhões disparando à
distância.
Estas são as piores horas.
Gosto deste lugar, mas, evidentemente, ficarei apenas alguns dias. De que
adiantaria outra coisa?
Dentro de poucos dias, levanto-me pela manhã e parto para Denver, tudo
apontando o leste.
E alguém aponta o oeste.
Não seja sentimental, Collier!
Quatro e vinte e sete da madrugada. Vou me levantar e beber água. Esse sabor
de cloro não me agrada
como eu tinha em casa.
Casa?
2 comentários:
Antes de vir, joguei uma moeda: cara, norte; coroa, sul.
E o tempo passa, porque o tempo é o trabalhador que nunca descansa. Meio triste esse início do livro. Fico pensando se no cotidiano não dou valor às pequenas cosias que acontecem a minha volta, mas como seria a vida sem essa correria? Talvez se tornasse monótono reparar todos os dias com o que a brisa brinca ou sem se importar com as batidas do relógio. Já reparou naquelas árvores velhas, de casca grossa, enraizadas e que parecem saber de tudo, são soberanas, cheias de si. Penso que tanto eu como você somos iguais a elas. Você deixaria tudo para trás para ter o destino decidido pelo lado de uma moeda? Foi corajosa esta atitude? Ou a real coragem é enfrentar o cotidiano tedioso e de surpresas desagradáveis? Eu não sei.
Acabei de descobrir que Stravinski é bom, não conhecia.
“Por quanto tempo este hotel esteve aqui?” Por quanto tempo as coisas estão ali na nossa frente e não vemos, ou talvez vemos o que realmente deveria ser visto. Percebo que não estou boa para conclusões. Mas uma palavra interessante eu posso tirar deste primeiro texto... inoperável...ele não tinha, mas você tem escolha.
Enfim, foi interessante... gostei more de partilhar o primeiro dia com você, é legal para fazer uma reflexão, pode ser que se torne um hábito nosso.
Sua Elise
Eu acredito que em nossa vida, esse exercicio diário do reparar as coisas ao redor deveria ser feito. Paulo Coelho o aconselha em um dos exercicios do Diário de um Mago. Fazer as coisas do seu sdia a dia nuam velocidade menor, reparar o seu respirar, seu caminhar, pequenos detalhes que a gente deixa passar pela correria do dia a dia, e nestas pequenas coisas as ezes pode estar algo que simbolize muito.. não sei.. acho que na correria do dia a dia eu tb deixo passar muita coisa. No dia de trabalho atarefado e exaustivo, no retornar para casa estressante, no realizar de hobby para varias pessoas, eu acredito pecar e não demonstrar muitas coisas que se fizesse com mais calma talvez conseguisse..
Eu espero sim que se torne um hábito more. Qualquer coisa que faço com vc é maravilhoso pra mim, só pelo fato de fazermos juntos.
Seu Rich
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